Uma ação coletiva encabeçada por moradores do bairro Capricórnio está mudando o cenário ambiental da praia de Caraguatatuba. A Associação dos Amigos do Capricórnio (Ascapri) implementou totens ecológicos equipados com cinzeiros feitos de bambu na entrada da orla, disponíveis para que banhistas os levem consigo durante o banho de mar e os devolvam — com as bitucas coletadas — ao sair da praia.

O projeto surgiu primeiro no Boulevard Capricórnio, centro comercial do bairro, como parte de uma campanha de conscientização, e avançou naturalmente para a faixa de areia, onde a contaminação por pontas de cigarro representa um risco ambiental significativo. Cada bituca descartada de forma inadequada pode contaminar entre 70 e 1.000 litros de água — e o filtro de acetato de celulose presente nos cigarros leva até 15 anos para se fragmentar na natureza.

Do ecoponto à usina de reciclagem

Todo o material recolhido pelos totens é direcionado ao ecoponto do bairro Martim de Sá e, em seguida, encaminhado à Poiato Recicla, empresa sediada em Votorantim (SP) que opera a primeira usina de reciclagem exclusiva de bitucas de cigarro do Brasil.

No processo industrial, as bitucas passam por triagem manual, seguida de cozimento químico para neutralização de substâncias tóxicas como nicotina, chumbo e arsênico. A fibra resultante é então branqueada e prensada, originando massa de celulose limpa destinada à produção de papel artesanal. O mesmo processo que levaria 15 anos na natureza é concluído em apenas 2 horas dentro da usina.

Comunidade como protagonista

A iniciativa da Ascapri chama atenção por seu caráter participativo: em vez de depender exclusivamente de fiscalização ou infraestrutura pública, a proposta convida o próprio banhista a fazer parte da cadeia de descarte responsável. O modelo pode inspirar outras associações de bairro ao longo do Litoral Norte paulista a adotar soluções semelhantes em suas orlas.