Mais de um século de fé e mar: Ubatuba celebra o Festival de São Pedro Pescador com raízes em 1923
Tradição caiçara iniciada com uma missa improvisada entre canoas na Baía de Ubatuba atravessa gerações e mantém viva a identidade dos pescadores
Há mais de cem anos, em 29 de junho de 1923, um grupo de pescadores reuniu suas canoas na Baía de Ubatuba e improvisou uma missa marítima em homenagem a São Pedro. Um altar balançava ao ritmo das ondas, ladeado por redes de pesca e remos. Daquele gesto simples nasceu o que hoje é uma das celebrações culturais mais enraizadas do Litoral Norte paulista: o Festival de São Pedro Pescador de Ubatuba.
A festa marca o ponto de encontro entre fé, identidade e memória coletiva da comunidade caiçara. Nas primeiras décadas, as celebrações eram animadas por alvoradas e procissões iluminadas pelas chamadas lâmpadas fifó, equipamentos rudimentares que pontuavam os cortejos noturnos e conferiam à festa uma atmosfera singular, misturando o sagrado e o cotidiano dos moradores que dependiam do mar para viver.
A imagem que chegou pelo mar
Um momento decisivo na consolidação da tradição ocorreu em 1942, quando um padre alemão trouxe, pelo próprio mar, uma imagem de São Pedro que passou a ser venerada pela comunidade. O gesto reforçou o simbolismo da festa e aprofundou a ligação entre o santo padroeiro dos pescadores e a vida marítima ubatubana.
Atualmente, as celebrações têm como palco principal a Praça de Eventos da Avenida Iperoig, um dos espaços mais tradicionais da cidade, às margens do mesmo litoral que inspirou os primeiros devotos há mais de um século.
Patrimônio vivo da cultura caiçara
Mais do que uma festa religiosa, o Festival de São Pedro é entendido pela comunidade como um ato contínuo de preservação cultural. Ele reúne gerações distintas em torno de valores compartilhados: a devoção ao santo, o respeito ao mar como fonte de sustento e caminho espiritual, e o orgulho de uma identidade forjada entre a mata atlântica e o Atlântico.
A celebração integra um conjunto de festividades que acontecem neste mesmo período em diferentes municípios do Litoral Norte. Em Ilhabela, a Procissão Marítima centenária está prevista para o domingo (28), e em São Sebastião o Bairro São Francisco também realiza sua própria festa em honra ao mesmo santo — evidenciando como a devoção a São Pedro é um fio condutor da cultura caiçara que atravessa toda a região.