A história de Deborah Moraes, 41 anos, começa onde muitos moradores do Litoral Norte paulista também começam: descalça, na areia. Criada na Praia das Cigarras, em São Sebastião, ela acompanhou a mãe no trabalho de caseira em casas de veraneio e, ainda menina, folheava as revistas náuticas que os patrões deixavam sobre a mesa. Décadas depois, ela mesma virou personagem desse universo ao deixar para trás a estabilidade do serviço público e abrir a própria empresa de passeios de lancha entre São Sebastião e Ubatuba.

Em entrevista publicada nesta sexta-feira (30) pela revista Náutica, Deborah resumiu a guinada com uma frase que carrega cansaço e renascimento: "o mar me curou". Mãe do pequeno Felipe Samuel, de 8 anos, diagnosticado dentro do espectro autista, ela conta que a transição de carreira foi também uma resposta à rotina rígida que conciliava cuidados intensivos com o filho e a função de secretária em uma escola.

Da saboaria caseira ao convite para o mar

O primeiro passo fora da zona de conforto veio em 2019, quando Deborah teve o filho e começou a sentir a licença-maternidade longa demais para o seu ritmo. Buscou vídeos no YouTube, aprendeu a fazer sabonetes artesanais e passou a vender as peças em um condomínio onde transitava. Foi ali, em um encontro casual entre clientes e barras de sabão, que surgiu o convite que mudaria sua trajetória profissional.

Um dos condôminos, Erick Turcato, mantinha uma embarcação parada na Praia do Lázaro, em Ubatuba — um dos pontos mais procurados do Litoral Norte para roteiros marítimos. A ideia de aproveitar o barco para passeios turísticos ganhou corpo quando ele percebeu a capacidade de venda da então saboeira. A parceria abriu para Deborah a porta de um setor que ela só conhecia de longe, mas que sempre esteve ao alcance da vista, da janela de casa.

Maternidade atípica como combustível

A nova rotina passou a exigir aprendizado acelerado sobre operação náutica, atendimento a turistas e a burocracia de uma empresa formal — tudo enquanto conciliava terapias e a rotina escolar do filho. Para Deborah, conforme relatou à reportagem, a experiência de ser mãe atípica deu o empurrão necessário para encarar a incerteza financeira da virada de carreira. "Acredito que não existam coincidências na vida", afirmou, ao lembrar dos sinais que conectavam sua infância em Cigarras ao destino marítimo.

Empreendedorismo náutico ganha corpo no Litoral Norte

O caso se soma a um cenário de movimentação econômica que vem sendo monitorado pelos municípios do Litoral Norte. A Secretaria de Turismo de São Sebastião divulgou recentemente que o município fechou abril de 2026 com ocupação hoteleira média de 60% e alta de 11,41% na arrecadação do ISS turístico, indicadores que sustentam o avanço de pequenos empreendimentos voltados à experiência no mar. Em Ilhabela, em paralelo, a Prefeitura abriu prazo até 7 de junho para regularização de embarcações de pesca artesanal pelo PROPESC, reforçando que a relação entre comunidade caiçara e atividade náutica continua no centro das políticas locais.

A trajetória de Deborah Moraes, contada por um veículo especializado de circulação nacional, joga luz sobre um tipo de empreendedora que ganha espaço entre Cigarras, Lázaro e demais enseadas do litoral: moradoras que conhecem o território desde a infância e migram do trabalho doméstico ou do serviço público para o turismo de experiência, alimentando uma economia que cresce nas margens das rotas mais conhecidas.