São Sebastião adota Violentômetro nas escolas para ensinar jovens a reconhecer relacionamentos abusivos
Projeto piloto de 24 meses leva ferramenta educativa da Defensoria Pública ao 9º ano de escola em Cambury e aposta em metodologias participativas para prevenir violência de gênero na adolescência
A rede municipal de ensino de São Sebastião passa a integrar o debate sobre violência de gênero no cotidiano escolar. Por meio de uma parceria firmada entre a Secretaria Municipal de Educação (Seduc) e a Defensoria Pública do Estado de São Paulo, a cidade iniciou o projeto piloto Prevenção da Violência contra a Mulher no Município de São Sebastião, voltado a estudantes do 9º ano da Escola Municipal Mathew Lucca Carmo Damasceno, localizada em Cambury, na Costa Sul do município.
A iniciativa tem duração prevista de 24 meses e faz uso do Violentômetro como principal recurso didático — uma ferramenta visual que apresenta, de forma acessível e graduada, diferentes comportamentos capazes de configurar violência em uma relação afetiva. A proposta é justamente tornar visível o que muitas vezes passa despercebido: o ciúme excessivo, o controle sobre rotinas e amizades, a manipulação emocional e outras formas de abuso que costumam ser naturalizadas, sobretudo entre jovens.
Demanda identificada nos atendimentos
O projeto nasceu de um diagnóstico socioterritorial conduzido pela equipe da Defensoria Pública local, que apontou a violência contra a mulher como uma das ocorrências mais frequentes nos atendimentos prestados pela instituição em São Sebastião. A partir desse levantamento, a defensora pública Alessandra Pinho da Silva, a psicóloga Marília Marra de Almeida e a assistente social Morgana Pereira Paiva — todas ligadas ao Centro de Atendimento Multidisciplinar (CAM) da unidade local — estruturaram uma proposta pedagógica focada na prevenção.
A estratégia centra-se na adolescência por ser um período de formação de identidade e de primeiros vínculos afetivos. Atuar nessa janela é, segundo os idealizadores, uma forma de criar bases mais sólidas para relações fundadas no respeito mútuo e na igualdade de gênero.
Abordagem interdisciplinar
As atividades têm caráter participativo: os alunos serão convidados a analisar situações do cotidiano, debater direitos das mulheres e conhecer a rede de proteção disponível no município. O programa conta ainda com um time interdisciplinar ampliado: o professor de História Alex Ayo Felix, com experiência em trabalho com adolescentes da Fundação CASA, e a socióloga Mara Laudelina Pereira Nasser, atuante em grupos reflexivos para homens autores de violência, integram as ações e ampliam o alcance do diálogo sobre juventude, relações sociais e cidadania.
A proposta lúdica e dialógica busca evitar o tom instrutivo que, muitas vezes, distancia os jovens do tema. Em vez de aulas expositivas, o projeto privilegia dinâmicas coletivas e análise de situações reais para estimular a reflexão e o protagonismo dos estudantes na identificação precoce de sinais de abuso.
Referência para o Litoral Norte
O formato piloto adotado em Cambury abre espaço para que, ao final do ciclo de 24 meses, a metodologia seja avaliada e potencialmente replicada em outras unidades da rede municipal e em municípios vizinhos do Litoral Norte. Em uma região que recebe fluxo turístico intenso e convive com desafios sociais amplificados pelo crescimento urbano acelerado, iniciativas de prevenção estruturada na escola representam um avanço no enfrentamento de um problema que, como demonstram os próprios dados da Defensoria, permanece persistente e subestimado.