Registros feitos em Ilhabela ajudam estudo internacional a rastrear travessias inéditas de baleias-jubarte entre Brasil e Austrália
Pesquisa publicada na Royal Society Open Science usou fotos da plataforma Happywhale e contou com a colaboração de cientistas-cidadãos do Litoral Norte paulista
Imagens feitas em Ilhabela passaram a integrar um estudo internacional que ampliou o conhecimento sobre as rotas migratórias das baleias-jubarte. O trabalho, publicado nesta semana na revista científica britânica Royal Society Open Science e repercutido pelo jornal The Guardian, identificou deslocamentos inéditos da espécie entre as costas do Brasil e da Austrália a partir do cruzamento de registros fotográficos enviados por pesquisadores e voluntários de diferentes partes do mundo.
A pesquisa destaca o papel da foto-identificação como ferramenta central para monitorar populações de cetáceos. Cada baleia possui um padrão único de marcas e pigmentação na cauda, o que permite reconhecê-la individualmente quando ela aparece em outras regiões do planeta. Esses cruzamentos só se tornaram possíveis em larga escala graças à plataforma Happywhale, que reúne contribuições de cientistas profissionais e de observadores comuns.
Ciência cidadã no canal de São Sebastião
Entre as colaborações citadas estão imagens capturadas em Ilhabela, ponto frequente de passagem das jubartes durante a temporada reprodutiva no litoral brasileiro, entre julho e novembro. Operadores de turismo náutico, mergulhadores e moradores que registram avistamentos no Canal de São Sebastião alimentam a base de dados utilizada pelos cientistas, fortalecendo o que se chama de ciência cidadã.
A participação local reforça o protagonismo do Litoral Norte paulista como área estratégica de monitoramento ambiental. Os mesmos canais e enseadas que recebem turistas no inverno funcionam como pontos de observação que ajudam a compreender deslocamentos transoceânicos, comportamento social e padrões reprodutivos da espécie.
Impacto da descoberta
De acordo com a publicação, os deslocamentos registrados entre o Atlântico Sul e o Pacífico desafiam o entendimento tradicional sobre as rotas migratórias das jubartes, em geral consideradas mais fiéis a regiões específicas. A constatação levanta novas hipóteses sobre adaptação da espécie às mudanças nas condições oceânicas e nos estoques alimentares.
Para Ilhabela, que aposta cada vez mais no turismo de observação de fauna, o resultado tem desdobramentos diretos: agrega valor científico à atividade, aproxima o público da pesquisa e reforça a necessidade de boas práticas durante os passeios para observação de baleias, evitando perturbar os animais e garantindo registros úteis para a ciência.