Operação Merx: viaturas da Polícia Civil escoltavam propina em SS
Relatórios do Gaeco e da Corregedoria apontam que carros oficiais interceptavam cargas de eletrônicos e depois as protegiam na estrada mediante pagamento; ex-secretário adjunto de Segurança teve prisão preventiva decretada
Novos detalhes da Operação Merx, que tem o município de São Sebastião como um dos principais alvos, indicam que viaturas oficiais da Polícia Civil eram usadas para dar cobertura a cargas de produtos contrabandeados em troca de propina. As informações constam de relatórios do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e da Corregedoria da Polícia Civil, obtidos pela imprensa.
Segundo a apuração, os veículos oficiais tinham uma dupla função dentro do esquema. Primeiro, eram empregados para interceptar caminhões que transportavam eletrônicos trazidos por descaminho, ou seja, sem o pagamento de impostos. Depois da abordagem e da negociação de valores, a mesma viatura passava a escoltar a mercadoria liberada pela rodovia, evitando que a carga fosse barrada por outras forças de segurança, como a Polícia Rodoviária Federal.
R$ 2,35 milhões em vantagens indevidas
Os investigadores identificaram pelo menos quatro episódios desse tipo entre junho e dezembro de 2024, que somaram cerca de R$ 2,35 milhões em vantagens indevidas cobradas pelo grupo. De acordo com o Ministério Público, o padrão exigido girava em torno de 70% do valor total estimado de cada carga interceptada.
Um dos casos citados nos relatórios ocorreu após uma abordagem em Barueri, na Grande São Paulo, em agosto de 2024. Uma carga avaliada em US$ 191 mil — cerca de R$ 1,04 milhão à época — teria sido devolvida depois do pagamento de R$ 700 mil, feito em espécie e por transferências bancárias.
Prisões e bloqueio de bens
Entre os nomes apontados como centrais na investigação está o do policial civil Marcos Vinícius de Souza Melo, ex-secretário adjunto de Segurança Pública de São Sebastião, que teve a prisão preventiva decretada no processo.
Além das ordens de prisão contra o ex-secretário adjunto, policiais civis, advogados e empresários, a Justiça Federal determinou o bloqueio patrimonial de R$ 4 milhões dos investigados e o afastamento de funções públicas. As investigações seguem a cargo do Gaeco e da Corregedoria da Polícia Civil.