Ubatuba: Estado reconhece Quilombo da Fazenda, em Picinguaba
Decisão do Itesp, publicada no Diário Oficial, formaliza cerca de 970,8 hectares dentro do Parque Estadual da Serra do Mar e abre caminho para um plano de uso tradicional
A Comunidade Quilombola da Fazenda, na região de Picinguaba, em Ubatuba, passou a contar com reconhecimento oficial do Estado de São Paulo como remanescente de quilombo. A decisão foi aprovada pela Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp) e publicada no Diário Oficial do Estado em 9 de setembro de 2026. A Prefeitura de Ubatuba divulgou informações sobre o caso em 16 de setembro, destacando o peso do ato para o município.
O que o reconhecimento formaliza
O ato estadual formaliza a identificação histórica, cultural e territorial da comunidade. A área reconhecida tem aproximadamente 970,8 hectares e está dentro do Parque Estadual da Serra do Mar, no Núcleo Picinguaba, uma das porções de maior relevância ambiental do litoral norte paulista.
Na prática, o reconhecimento amplia a base institucional para que políticas públicas sejam desenhadas especificamente para as famílias da Comunidade Quilombola da Fazenda — algo que, até aqui, dependia de um enquadramento menos consolidado.
Conciliação acompanhada pelo TRF3
De acordo com o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3), o reconhecimento foi construído dentro de um processo de conciliação acompanhado pelo Gabinete da Conciliação do tribunal. O acordo tenta organizar uma equação delicada: a proteção da Mata Atlântica, as regras de gestão de uma unidade de conservação e a permanência das famílias quilombolas no território que ocupam tradicionalmente.
Por estar em área protegida e ambientalmente sensível, o território exige esse ajuste fino entre os direitos da comunidade e as normas de conservação do parque estadual.
Um pedido antigo da comunidade
A certificação estadual não é o primeiro passo. Os moradores da região já haviam sido reconhecidos pela Fundação Cultural Palmares em 2006, mas a comunidade seguia à espera de avanços ligados à regularização e ao reconhecimento do território. É esse ponto que a decisão de setembro movimenta.
Próximos encaminhamentos
Entre os desdobramentos previstos no acordo está a elaboração de um plano de uso tradicional, que deve detalhar como a comunidade utiliza a área dentro das regras do parque.
O acordo também prevê a possibilidade de recategorizar as porções mais adensadas do território como Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS). Essa mudança de categoria, no entanto, não está decidida: depende dos procedimentos e das avaliações previstos pelas instituições responsáveis.
O reconhecimento tende ainda a dar mais visibilidade a Picinguaba e pode alimentar o debate sobre visitação responsável e turismo de base comunitária na região.
Pontos ainda em aberto
- Número de famílias e de moradores abrangidos pelo território reconhecido;
- Prazos para a elaboração e a publicação do plano de uso tradicional;
- Trâmites e cronograma de uma eventual recategorização para Reserva de Desenvolvimento Sustentável;
- Etapas seguintes relacionadas à regularização do território;
- Políticas públicas específicas, com prazo ou recursos definidos, voltadas à comunidade.