Dois municípios do Litoral Norte paulista — Ubatuba e São Sebastião — formalizaram contratos de crédito consignado com o Banco Digimais antes de a instituição se tornar alvo da Polícia Federal. A informação veio à tona após a deflagração da Operação Mirage, investigação que apura suspeitas de fraude administrativa, inserção de dados falsos em demonstrações financeiras e realização de operações de crédito sem autorização.

Em Ubatuba, o contrato foi assinado em outubro de 2025 com prazo de vigência de cinco anos. O acordo permite que servidores municipais contratem empréstimos e realizem portabilidade de dívidas com desconto direto em folha de pagamento. Já São Sebastião celebrou o seu contrato em novembro do mesmo ano, com duração de um ano, voltado aos beneficiários do fundo de pensão municipal.

O que apura a Operação Mirage

A investigação federal mobilizou mais de 50 agentes, que cumpriram nove mandados de busca e apreensão. O Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, é acusado de fraudar a gestão da instituição, manipular balanços contábeis e conduzir operações de crédito irregulares. As autoridades estimam que os valores envolvidos possam chegar a R$ 670 milhões.

Posição das prefeituras

Tanto Ubatuba quanto São Sebastião emitiram notas esclarecendo que a celebração dos contratos não representa qualquer irregularidade por parte das administrações municipais. Segundo as gestões, trata-se de acordos operacionais que apenas habilitam o banco como correspondente para desconto em folha — a adesão é voluntária por parte de cada servidor ou beneficiário interessado em contratar crédito. As prefeituras não são partes tomadoras dos empréstimos.

O desdobramento da Operação Mirage, no entanto, coloca em evidência o risco reputacional e operacional de contratos firmados com instituições financeiras sob investigação, mesmo que as municipalidades atuem apenas como intermediárias do canal de desconto. Não há, até o momento, indícios de que servidores ou pensionistas dos dois municípios tenham sofrido prejuízo direto em razão dos acordos.